Todos os dias de manhã quando estou chegando no serviço sou recebido ainda na rua com um saudoso bom dia:

E aí camarada. Já vai pro trabalho?

Quem me recebe assim é Deusdete da Silva Lopes, conhecido entre as pessoas como Macarrão por causa do trabalho que ele exerce confeccionando cadeiras de descanço, as tão conhecidas cadeiras de macarrão.

Deusdete da Silva Nunes, é o nome correto

Deusdete é o maior especialista em cadeiras que eu conheço. Sabe como ninguém os detalhes e as tecnicidades envolvidas no processo. Sabe dizer de longe se uma cadeira é boa ou ruim. Consegue descrever os perigos que uma cadeira mal feita pode provocar numa pessoa. Quando quiser ficar a vontade se apoiando apenas nas pernas trazeiras com segurança, já sabe a quem procurar. Ele sabe como fazer a cadeira ficar firme e guentar os solavancos do vai-e-vem.

Nas mãos dele, cada cadeira é uma obra de arte confeccionada de forma artesanal.

O nosso descanso numa cadeira achonchegante passa pelo trabalho desse artesão. Quem nunca descançou no balanço de numa cadeira confortável? Quem nunca curtiu uma preguiça ou bateu um papo regado a um bom cafezinho com os amigos no fim da tarde, ou se deu ao luxo de ficar de bobeira sentado na calçada? Todos já ouviram a célebre frase:

Seja bem-vindo. Puxe a cadeira, sente-se. Fique a vontade.

Melhor que a cadeira, só o descanço numa rede armada debaixo de uma árvore. Mas isso fica pra outro post.

Não há um dia que não o veja na sua labuta, seguindo rigorosamente as etapas do desenvolvimento da cadeira. Carrega pra lá, carrega pra cá, lixa, pinta. A todo momento ele está envolvido nesse processo. A porta da sua casa é uma vitrine expostos diversos modelos a espera dos compradores. Tem azul, verde, vermelha, com escosto pequeno, mais reclinável, menos reclinável. Vez ou outra, alguém pára, negocia, efetua o pagamento e vai pra casa feliz com sua cadeira nova. Sua maior renda vem de pedidos sob encomenda. É um verdadeiro empreendedor. Os negócios vão bem, graças a Deus.

Fico observando a rotina que é o seu trabalho:

  • Montagem e soldagem dos tubos de metalon na seralheria;
  • lixagem do metal;
  • demão de tinta anti-ferrugem;
  • exposição ao sol pra secar

Depois de toda essa etapa é que se inicia o processo de tecelagem das tiras de plástico, e assim a cadeira vai tomando forma no vai-e-vem do entralaço, exigindo muita força e concentração do artesão pra deixar o fio bem esticado.

Face do trabalho de Deusdete, o Macarrão

As mãos trazem as marcas de anos de dedicação ao trabalho e o rosto traz a marca da crueldade humana. Há alguns anos foi agredido por vândalos que o atacaram numa viela escura da cidade enquanto voltava pra casa. Acertaram com um pedaço de madeira e a pancada foi tão forte que lhe custou o olho direito. Nunca conversei com ele sobre esse assunto. Prefiro conversar sobre as técnicas para evitar que o fio se desenrole, que pra mim é um verdadeiro estudo de física, propriedades sinéticas, forças da elasticidade.

Além de artesão, Deusdete é um dançarino dos mais hilários que eu já vi. Figura marcante num bar do centro da cidade. Na maioria das noites é possível vê-lo no Bar do Bida aos embalos do Tecno Brega e do Tecno Melody mandando ver nos passos que só ele, repito: só ele sabe fazer.

Muito educado e prestativo, está sempre disposto a ensinar a qualquer pessoa sobre as manhas, o feeling, a treta, a vibe e o molejo dos seus passos, principalmente o mais conhecido de todos, em que se estica o braço esquerdo pra trás e com a mão direita faz um voo razante de baixo pra cima. Só mesmo o Michael Jackson pra chegar perto disso.

 

Fotografias são cortesia de Anderson Sousa