– Cara, me empresta Um Real aí?

– Ué! Um Real?

– É sim mano. Um Real pra eu ir alí comprar um pastel.

Observando o diálogo acima, parece tratar de uma pessoa completamente desprovida de dinheiro e sem nenhuma expectativa de obtê-lo ao ponto de pedir míseros um real.

Não é esse o caso.

Trata-se de um profissional gabaritado em suas funções, um ser humano economicamente ativo, extremamente criativo e produtivo.

Nos momentos seguintes, no caminho até o ponto de pastel, fui sendo informado sobre a falta de dinheiro que o afetava. Na verdade, ele tinha sim dinheiro na carteira como de costume pra pagar as despesas rotineiras que sempre aparecem como abastecer o carro, comer ou comprar uma garrafa d’agua.

Ele estava de viagem de uma cidade a outra indo pro trabalho, quando deu carona pra um senhora que carregava uma criança de colo. Essa senhora ainda iria pra outra cidade mais longe, e no local onde ela ficou, iria esperar que outra pessoa se compadecesse dela e oferecesse uma nova carona até sua cidade de destino.

Essa senhora estava numa situação constrangedora, correndo perigo na estrada. Com certeza a viagem era muito importante pra se arriscar assim, principalmente com uma criança. Sabemos muito bem que criança chora, fica com fome, cansa mais rápido que adultos, dorme, e quando dorme temos que carregar no colo. Ficar alí esperando carona por falta de dinheiro pra fazer uma viagem digna num ônibus deve ter sido humilhante. Porém ela não desanimou. Pegou a bolsa, a criança, e partiu pra encosta da rodovia arriscar uma carona.

Não pensando em nenhum dos pormenores dos bastidores dessa narrativa, simplesmente com o coração aberto, ele cedeu carona até o ponto onde iria ficar. Ainda restava um longo caminho pra Senhora, mas já era um bom trecho andado.

Poderia ter parado por aqui, afinal já tinha feito sua parte transportando ela um terço da viagem, mas ele não se contentou com isso. Tirou todo dinheiro que havia na carteira e cedeu à senhora para que pudesse seguir sua viagem agora dignamente dentro de um ônibus.

No nosso diálogo, ele proferiu uma frase que muito me chamou a atenção:

– Eu posso dar um jeito de ir no caixa eletrônico mais próximo pegar um pouco de dinheiro. E aquela senhora? Como faria pra seguir viagem sem um tostão no bolso?

Nada disso foi pra se vangloriar. Apenas uma atitude de alguém de bom coração.

Conversa alimentada por um bom pastel de queijo com presunto, acompanhado de suco de cajá.